Wiccaning não é batismo!

 


Este texto foi motivado por uma ação de meu filho Adônis, de 10 anos, que na aula de Ensino Religioso, declarou-se Wiccano para toda a turma e para o professor, o qual cumprimento por sua compreensão e maturidade como conduziu a aula após tal declaração.

A Wicca é uma religião cujas práticas e conexões entre seus adeptos (sacerdotisas e sacerdotes) se dão através de rituais. A ritualística é um componente muito presente nessa religião. Ritualizamos praticamente tudo porque enxergamos nessa prática um caminho para o sagrado, uma linguagem utilizada entre nosso consciente, as camadas mais profundas de nosso ser e os deuses. Ritualizamos para começar um dia de trabalho, para celebrar as estações, para cultuar os Deuses, etc. Ritualizamos também para delimitarmos o ingresso nas diversas fases da vida através do que chamamos Ritos de Passagem.

Precisamos compreender primeiramente que, se há algo que prezamos na Wicca é a liberdade de escolha, o direito do indivíduo de escolher seus caminhos, sejam eles no contexto sexual, comportamental, profissional ou espiritual. “Viva e deixe viver”, reza um de nossos textos sagrados. 

Partindo dessa compreensão, cada rito de passagem consiste, na verdade, em momentos formais de boas vindas dadas ao indivíduo aos mistérios trazidos por cada etapa da vida. 

Embora os ritos de passagem sejam realizados por comunidades de Wiccanos para com seus filhos, por exemplo, NENHUM RITO DE PASSAGEM TORNA UMA PESSOA WICCANIANA. Esses ritos diferem de outro conjunto de rituais que temos na Wicca chamados Ritos Iniciáticos, que são realizados a partir da escolha da pessoa em seguir o caminho sacerdotal.

Em se tratando do Wiccaning, um dos ritos de passagem vivenciados em nossa religião, há uma confusão mantida muito mais por quem não é pagão do que por quem é. Diferente do batismo católico, por exemplo, que marca o início de uma criação e educação catequética por parte dos pais e padrinhos, os quais se comprometem a educar a criança no catolicismo, o ritual de Wiccaning se trata de uma apresentação da criança à comunidade espiritual à qual seus pais (ou um dos pais) pertencem. Nesse rito, a criança é apresentada às Divindades e poderes cultuados pelo grupo, coven, clã, tradição, bem como aos praticantes que testemunham o rito, os quais abençoam-na com dons, atributos ou energias benéficas a sua vida. Em nenhum momento, em tal ritual, a criança, seus pais ou padrinhos se comprometem com uma educação pagã, mas a amarem, cuidarem e protegerem-na em seu caminho e em suas escolhas.

No seio de celebrações como o Wiccaning, a criança, ao desenvolver sua personalidade, criará um sentimento de pertencimento e de identidade mais claros a respeito de quem é e de onde vem, o que lhe fará mais segura de si na vivência da experiência humana, enfrentando os desafios que sua jornada lhe apresentar com mais confiança e dignidade, seja qual for o caminho espiritual que desejar seguir, pois liberdade é um direito de nascença.

Assim sendo, apesar do orgulho de ter um filho se declarando Wiccano, reconhecendo nesse gesto sua coragem e maturidade e mesmo já tendo vivenciado alguns ritos de passagem, ele apenas o será de fato ao passar pelos ritos iniciáticos na idade adequada e se ele escolher trilhar esse caminho sacerdotal em sua vida. No momento ele é uma criança linda, gentil e amada por seus pais, uma católica virginiana e um pai bruxo, que muito o amam assim como sua irmã Morgana, e que tentam transmitir-lhe o melhor desses dois universos.



Sacerdote Leigh Cerddorion

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