Uma das coisas que acho mais fantásticas na cozinha é seu poder de nos ligar ao passado. Neste mês de junho de 2022 decidimos passar as fogueiras no sítio da família, num tempo em que as chuvas abençoaram os açudes com cheias e as plantações com fertilidade. Daqui, enquanto preparamos a massa da pamonha e da canjica, salgamos as carnes e fazemos a fogueira podemos ver da janela a vida pulsando, fazendo as pessoas sorrirem mais, banharem-se nos açudes sangrando (termo que usamos quando açudes transbordam) e se reunirem pra festejar.
Por uma fração de segundo, viajo através do tempo, para além das honras a João, até às honras a Junto, a quem festejavam na celebração nas "junonias", posteriormente transformadas em festas juninas. Fico imaginando como ficavam felizes, naquele tempo em que não havia supermercado, nem geladeira, e dependiam exclusivamente do que colhiam. Penso, ao ouvir minha Tia Nenê dizer que a lavoura não se perde mais este ano, na satisfação que deveriam sentir os antigos ao verem seus campos amadurecendo e quase prontos para a colheita e a gratidão aos deuses revelada nas fogueiras que acendiam, nas oferendas que faziam. E quando a colheita era incerta oráculos eram consultados, aliás, no mês dedicado à Deusa do lar, da família e dos casamentos, imagino os procedimentos mágicos que faziam para garantir fertilidade, um casamento próspero e longevo, tudo sob os auspícios da Deusa Junto.
Então volto dessa viagem no tempo e percebo que tudo se repete, como era em outros tempos, embora com outra roupagem. As fogueiras dos santos, as adivinhações, os feitiços de amor e para conseguir casamento, as quadrilhas, as adivinhações. As tradições permaneceram, diferentes em algum aspecto, mas estão todas aí. Quer reconstruir seus sabbats pagãos? Reúna-se com sua família em tempos de Natal, Páscoa, Festas Juninas, Finados, Ação de Graças. Está tudo vivo, paganismo vivo, embora travestido.
Nessas horas converso com minha mãe, que sabe do meu amor pelo mês, pela cultura popular e pela magia que isso revela. Enquanto discutimos sobre quem faz o almoço e quem faz a pamonha, contamos histórias e vivemos história, participamos dessa roda mágica de vida, morte e renascimento, que sempre gira sem parar. Nessas horas agradeço mais uma vez, por mais um giro que me permitiram viver, por poder usufruir desses momentos com minha família, por aprender sempre sobre o tempo. A fogueira, à noite acesa, levará nossas orações, as de minha mãe a João, as minhas à Deusa, por tudo que colhemos e vamos colher. Orações que dividirão o mesmo espaço porque o amor é o ingrediente que permite preces de duas culturas tão diferentes se elevarem na mesma chama em uma noite estrelada de junho.
Bênçãos da Senhora do Caldeirão e do Senhor Adotado.
Leigh Cerddorion
Sacerdote do Clã de Arianrhod
