Encontrei um coven/clã/tradição no qual desejo participar... O que fazer?

 


Aqueles buscadores que um dia percebem a necessidade de pertencer a um grupo e passam a desejar treinamento formal sabem que a busca não é fácil. O caminho da busca é árduo para o postulante à dedicação, principalmente àqueles cuja região onde moram, tal qual a minha, é distante dos grandes centros, onde se concentram maior parte dos covens e tradições com trabalho já consolidado no Brasil.  


Achar um coven ao qual nos afinizamos envolve muita pesquisa, a princípio em redes sociais, sites, testemunhos de pessoas, etc. A isso segue-se um processo de conhecimento, para que alguma relação se estabeleça entre o buscador e os membros do coven. Isso leva tempo e em muitos casos, investimento, pois muitas vezes será necessário se deslocar ao local onde o grupo mora. Aqui estamos falando de viagens intermunicipais, interestaduais e até internacionais.


Supondo então que você já tenha a sorte de ter passado por todo esse processo e recebeu abertura para a possibilidade de se tornar um membro da tradição/clã ou coven, o que fazer? Como se comportar? Qual deve ser a atitude e a natureza de quem está prestes a pertencer a uma família mágica?


A seguir, algumas das características essenciais a um futuro covener observadas na maioria dos grupos formais de Wicca e bruxaria. Tais características serão necessárias não somente no processo de admissão, mas em toda vida mágica do postulante:


Uma pessoa focada e proativa: foco e proatividade são características de buscadores sinceros porque ambas as qualidades revelam uma vontade forte e grande capacidade de concretizar aquilo que quer. Significa ter suas metas bem definidas e estar sempre selecionando e realizando atividades que o aproximarão dessas metas. Enquanto membro de um coven, a meta principal deve ser a conclusão de cada etapa iniciática através do cumprimento de suas atividades, rituais, desafios e vivências.


Um bom pesquisador: não basta apenas ser leitor, mas ser um produtor de conhecimento. Bons sacerdotes e boas sacerdotisas não esperaram apenas pelo conhecimento de seus iniciadores, muito menos restringiram à leitura passiva de livros sobre bruxaria, mas construíram ativamente seu próprio acervo cultural mágico, fundamentaram seus conhecimentos após vasta leitura, muita experimentação e constante registro do que aprenderam. A postura de um ser transformador do conhecimento está sempre presente no espírito do buscador sincero.


Um guardador de segredos: a Wicca é uma religião de mistérios e eles são vivenciados na teoria e na prática. O mistério guardado é revelado após o cumprimento de atividades e desafios específicos. O trabalho é árduo e aquele que se propõe acessar os mistérios valoriza o que recebeu pois sabe dos sacrifícios que fez e compreende que só a preparação permitirá a compreensão sobre o que lhe é revelado, mantendo assim o segredo para que outros tenham o mesmo direito de acessar tais mistérios passando pelo mesmo processo.


Alguém que respeite a experiência de quem vivencia o caminho a mais tempo. Não se trata de submissão, mas de compreender que no processo iniciático existe alguém cuidando de seu caminho, mostrando com todo carinho por onde caminhar. Isso requer entrega, respeito e confiança por parte do dedicado, aspectos que foram sendo construídos ao longo do período que teve início quando ambos, postulante e iniciador, se conheceram. 


Ser presente na comunidade mágica: a presença em tudo que é proposto pela comunidade na qual deseja ingressar é fundamental. Demonstra sua doação, sua consideração e o valor que se dá a ela. Ser presente implica em comparecer às atividades, celebrações, interagir com seus membros, seja presencialmente ou através dos grupos virtuais que ganharam muito mais força nos últimos anos. Os grupos se alimentam das relações. Embora a convivência acabe levando a conflitos pelas diferenças, nossa maturidade deve ser o norte para compreender que o que nos une é bem mais importante do que o que nos separa, como dizia Doreen Valiente.


Um constante aprendiz: ninguém sabe tudo, ninguém saberá de tudo. A postura de um(a) sacerdote/sacerdotisa deve ser a de alguém disposto(a) a aprender. Sempre aprendemos algo, a vida nos ensina, a natureza nos ensina, as pessoas nos ensinam, sejamos dedicados, iniciados ou elderes. A condição necessária para ingressar num caminho mágico novo é esvaziar-se. Entregar-se ao que há de ser aprendido e no caminho, no cumprir das tarefas, usar o que sabemos.


Alguém disposto a agregar e conviver: esse ponto jamais deve ser esquecido. Se você, por decisão própria, escolheu trilhar o caminho em grupo, saiba que a convivência é necessária. O grupo se abriu a você, percebeu em você potencial merecedor de adentrar seus mistérios. Honre essa concessão e esse compromisso. Sua existência no grupo ajudará no sacerdócio de cada membro, porque na convivência e na comunidade nosso sacerdócio se completa. A wicca não é uma religião solitária. Ela é comunitária, reconhece o valor e o potencial de cada membro. Embora, como na natureza, haja períodos em que desejamos e precisamos nos recolher, nos isolar para compreender determinados processos, o desejo de pertencer deve falar por último no coração de quem deseja ou acabou de ingressar numa comunidade mágica. Se essa voz calar, você deve se sentir livre para decidir retirar-se do grupo, com todas as bençãos de quem compreende que tudo tem início e fim para um novo recomeço, a fim de continuar sua busca.


Em face de tudo que foi explanado, fica um conselho para quem encontrou um coven, clã ou tradição potencialmente afinizado ao que você procura: tenha paciência, não queira apressar as coisas. A natureza não dá saltos, mas a cada segundo procura fincar raízes que se fortalecem lentamente, mas que com o tempo, permitem a árvore resistir as mais furiosas tempestades.


Bênçãos da Senhora do Caldeirão e do Senhor Gastado.


Leigh Cerddorion
Sacerdote do Clã de Arianrhod

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